Carregando

QUESTÕES DE VERNÁCULO VI: 'Presidenta, parenta, chefa e outros femininos'

Presidenta, parenta, chefa e outros femininos – Aprendemos outrora --e tal aprendizagem continua valendo-- que os substantivos terminados em -e são geralmente uniformes. Tal igualdade formal para os dois gêneros é quase absoluta para os terminados em -nte, que em regra são originários de particípios presentes e de adjetivos uniformes latinos. São chamados substantivos comuns de dois gêneros (o masculino distingue-se do feminino pelo gênero do artigo ou de outro determinante): o(a) agente, cliente, estudante, gerente, imigrante, paciente, servente, etc.

Há, todavia, um pequeno número que aceita a flexão normal de gênero, trocando -e por -a: elefante-elefanta, gigante-giganta, governante-governanta, hóspede-hóspeda, infante-infanta, parente-parenta, presidente-presidenta. Essas formas flexionadas estão consagradas pelo uso e têm abono dos doutrinadores (Bechara, Cegalla, Celso Cunha, Lindley Cintra, Rocha Lima, etc.). Trata-se de flexão genuína e histórica.

Investigando o gênero dos substantivos, Said Ali anota que já na linguagem quinhentista e seiscentista se fizeram registros dessas formas femininas de substantivos até então considerados comuns de dois gêneros: "Nomes em -e não compreendidos nesta categoria [a de nomes de títulos de nobreza e dignidades, como abade-abadessa, conde-condessa, duque-duquesa, sacerdote-sacerdotisa, etc.] resistem em geral à mudança, tornando-se comuns de dois, como amante, estudante, herege, agente, cliente, protestante, viajante. Usam-se porém com a característica -a : freira, feminino de freire ou frade, parenta, mestra, monja, hóspeda e infanta. Tornou-se o falar hodierno, neste ponto, mais sóbrio que a linguagem quinhentista e seiscentista, onde se encontram: '...Esta giganta era rica (Barros, Clar. 164 e passim) - Huma comedianta (Vieira, Cartas 2, 180) - Gracejando com as farsantas (Bernardes, N. Flor. 2, 314) ...' Não estariam, entretanto, grandemente convencidos os quinhentistas da correção desta linguagem se já hesitavam entre a infante e a infanta, como facilmente se vê na Crônica de D. Manuel por Damião de Góis. A forma infanta tornou-se, contudo, a preferida por Vieira e outros, e prevaleceu.(SAID ALI, Manuel. Gramática histórica da língua portuguesa. 8. ed. rev. e atual. por Mário Eduardo Viaro. São Paulo: Melhoramentos; Brasília: Ed. UNB, 2001, p.53)

A mim me parece óbvio que tal forma tenha prevalecido porque a flexão de gênero é a regra. A preferência pela flexão externa está no gênio, na evolução, na deriva da língua portuguesa. A uniformidade é a exceção. Os substantivos uniformes dividem-se em sobrecomuns (não importa o gênero): a criança, o cônjuge, a vítima, o algoz, a testemunha, o indivíduo, etc.; comuns de dois (o gênero é marcado pelo determinante, como se verificou acima); e epicenos ou promíscuos ( o gênero é marcado pelas palavras macho e fêmea): onça fêmea, onça macho ou macha; jacaré macho, jacaré fêmea ou fêmeo; mamão macho; etc.

Evanildo Bechara, em artigo intitulado "Poetisa ou poeta", lembra que certos substantivos outrora comuns de dois passaram com o decorrer do tempo a apresentar uma forma exclusiva para o feminino, como infanta e parenta , e que por analogia a essas formas outras apareceram: presidenta, oficiala, delegada, chefa, algumas "têm sabor eminentemente pejorativo e são do cunho popular, como carrasca e a própria forma chefa". No mesmo artigo, transcreve trecho de um artigo de Silva Correia publicado na Revista de Cultura, em abril de 1928, sobre a evoluçãom dessas formas femininas. Transcrevo alguns trechos: "Nos últimos tempos têm surgido numerosas formas femininas, que a língua de épocas não distantes conhecida (sic, deve ser desconhecia), - e que são como o reflexo filológico do progresso masculínisco da mulher, - hoje em franco acesso a carreiras liberais, donde outrora era sistematicamente excluída. Possuem já carta de naturalização femininos profissionais como médica, e estão em via de obtê-la outros como notária. Advogada, outrora termo usado apenas para designar a santa intercessora ou medianeira, serve normalmente, em nossos dias, para designar a doutora ou bacharela que exerce a advocacia. E destes dois últimos vocábulos..., um - doutora, logrou já geral aceitação e o outro - bacharela, não tardará que a obtenha. Castilho, nas Sabichonas, emprega a forma presidenta para designar a abelha mestra de um areópago de sabenças femininas, porém não sem certo matiz depreciativo. Não tardará, no entanto, que tal forma, que a terminação a torna mais característica, circule com o valor normal, ...; como não tardará que , com a concessão inevitável do voto à mulher, surjam os femininos - candidata, deputada, senadora.[...] Esta feminização apresenta às vezes dificuldades. Brunot achava horrível em francês uma forma como chefesse. Também, por agora, ao menos, em português chefa seria igualmente horrível: - o que não significa que tal forma não venha a aparecer um dia, possivelmente breve, pois que uma vez feita pela mulher, à face do costume e do código, a conquista de uma regalia, ela tem logo a repercussão na língua - espelho da alma dos povos e de todas as manifestações do progresso humano"(Na ponta da língua. Vol. 4. Rio de Janeiro:Lucerna, 2002, p.229 e 230).

Isso de aludirem alguns a particípios ativos ou derivativos verbais como proibidores da flexão natural de gênero é lição equivocada. A análise diacrônica aqui explica apenas a origem desses substantivos comuns de dois, não o estabelecimento de uma regra absoluta que impeça a criação de uma forma feminina porque aí estar-se-ia invadindo a área da sincronia da língua. As formas femininas se estabelecem em determinado momento da língua. É a força do uso que irá consagrá-las ou não.

Feitas essas considerações, não há mais vacilar: não foi a presidenta ou presidente Dilma - nem o PT - quem inventou o feminino presidenta. O vocábulo tem livre curso no idioma e está dicionarizado e registrado no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa - VOLP como substantivo feminino ao lado de presidente, adjetivo, substantivo comum de dois e substantivo masculino. Ambas as formas estão, portanto, corretas.

E-mail Imprimir PDF http://www2.tjam.jus.br/esmam/index.php?option=com_content&view=article&id=300:artigo300&catid=70:artigos-academicos&Itemid=116